Rev. Ricardo Agreste

Espiritualidade cristã e outras espiritualidades

Postado por Ricardo Agreste em 14 de maro de 2016

Vivemos um peri?odo histo?rico no qual assistimos um grande e crescente interesse por tudo quanto e? chamado de espiritualidade. Os dois se?culos em que o mundo ocidental esteve subjugado pela fala?cia do positivismo, o qual tentava reduzir homens e mulheres a? mera racionalidade, geraram este contrafluxo em nossa cultura contempora?nea. O tema da espiritualidade encontra-se como um dos elementos centrais deste movimento; podemos perceber isso nos inu?meros livros, cursos, vi?deos e pra?ticas que se apresentam como possibilidades a?queles que esta?o nessa busca.

Por um lado, essa redescoberta da espiritualidade pode ser vista como algo bom, especialmente para aqueles que, como servos de Cristo, esta?o engajados na tarefa de fazer outros disci?pulos em todas as culturas. A busca pela espiritualidade tem gerado nos dias de hoje inu?meras oportunidades como aquela vivida por Paulo no areo?pago da cidade de Atenas. Da mesma forma que o apo?stolo fez uso do pro?prio interesse de homens e mulheres por preencher o vazio interior de suas almas, podemos conduzir outros a? pessoa graciosa de Jesus, levando-os a? compreensa?o de que sua obra na cruz nos coloca numa posic?a?o de liberdade e intimidade junto ao Pai celeste. No entanto, na?o podemos desprezar o crescente risco de confundirmos a espiritualidade crista?, como nos e? oferecida a partir da pessoa e da obra de Jesus, com os modelos que nos sa?o apresentados neste aquecido mercado da fe? secular. Mesmo aqueles modelos considerados como “crista?os” – seja devi- do a? utilizac?a?o que fazem de terminologias e conceitos do Cristianismo, seja pela associac?a?o do seus articuladores com a fe? e religiosidade crista? – podem, na verdade, prescindir do fundamento sobre o qual toda espiritualidade crista? deve ser desenvolvida e articulada: a vida e obra de Jesus.

Para no?s, e? bem mais fa?cil percebermos estas disfunc?o?es quando presentes em propostas vinculadas ao mercado secular da espiritualidade, as quais nos falam deste tema como uma forma de entrarmos em contato com o nosso pro?prio ser interior e desfrutarmos da paz proveniente da reconciliac?a?o com a nossa alma. Outras nos oferecem uma espiritualidade que nos coloca numa posic?a?o de harmonia com o cosmos, produzindo em no?s sau?de fi?sica, emocional e espiritual necessa?ria para a vida. Ainda outras nos falam da espiritualidade como um meio de apropriac?a?o de toda energia positiva, na medida em que tudo o que na?o e? bom em no?s e? gradativamente dissipado e dilui?do.

No entanto, torna-se bem mais difi?cil distinguir a espiritualidade a partir da pessoa e da obra de Jesus de outros modelos espirituais que sa?o partes inerentes daquilo que consideramos como “evange?lico”. Temos muita dificuldade em admitir e declarar que algumas de nossas igrejas, pastores e pensadores podem, sim, estar ensinando, como diria o apo?stolo Paulo, um “outro evangelho que, na realidade, na?o e? o evangelho” (Ga?latas 1.6-7).

Precisamos identificar e compreender que o que nos e? oferecido por Deus na pessoa e na obra de Cristo e? parte central e inegocia?vel na verdadeira espiritualidade – e se distingue frontalmente de toda tentativa de promoc?a?o de qualquer outro sistema que prescinda de Deus como Deus e se confunda com auto-construc?a?o ou auto-salvac?a?o humana. Logo, enquanto as mais variadas espiritualidades te?m como propo?sito o bem estar pessoal e o desenvolvimento do ser de maneira auto?noma, o exerci?cio da genui?na espiritualidade crista? tem como propo?sito renovar, dias apo?s dia, nossa confianc?a e depende?ncia no amor e na grac?a de Deus.

Segundo Hebreus 10.19, “temos plena confianc?a para entrar no Santo dos Santos pelo sangue de Jesus, por um novo e vivo caminho que ele nos abriu por meio do ve?u, isto e?, do seu corpo”. Logo, nossa confianc?a para adentrarmos na presenc?a do Senhor a fim de desfrutar de sua intimidade na?o deve estar colocada em ritos, conceitos intelectuais profundos ou pra?ticas diversas, mas no que o Salvador fez por no?s na cruz atrave?s do derrama- mento de seu sangue. E? claro que determinadas pra?ticas, como a leitura bi?blica e a contemplac?a?o, nos possibilitam mais qualidade em nosso tempo e relac?a?o com Deus, enriquecendo nossa percepc?a?o acerca de Deus e do seu amor. No entanto, na?o sa?o estas coisas que nos asseguram a entrada na presenc?a de Deus, mas o que Jesus Cristo ja? fez na cruz do Calva?rio, ao derramar seu sangue pelos pecados, limitac?o?es e incapacidades do homem. A no?s nos cabe, ta?o somente, o corac?a?o quebrantado e humilde diante da perplexidade que o amor de Deus nos gera.

Toda espe?cie de espiritualidade que faz com que nos sintamos pessoas superiores e, consequ?entemente, dignas de estarmos na presenc?a do Senhor, acaba por nos colocar ainda mais distantes dele. A u?nica forma de realmente nos aproximarmos de Deus e compartilharmos de seu amor e? a confianc?a plena do que aconteceu na cruz e a compreensa?o de que isso nos e? oferecido inteiramente pela grac?a. Por isso, entre na presenc?a de Deus e desfruta de sua intimidade tendo a plena confianc?a de que Deus lhe ama e lhe deseja, na?o pelo que voce? tem sido, refletido ou praticado, mas pelo que Jesus fez por voce?. E, como dizia o apo?stolo Paulo, que este amor de Cristo nos constranja, a fim de que toda e qualquer transformac?a?o em nossas vidas seja decorrente do poder que emana da cruz e do constrangimento que seu amor produz.